Gil Portugal (abril/98)
O progresso da humanidade traduzido em termos de conforto vem, aos poucos, revelando um sem número de agressões ambientais, muitas delas inesperadas e até desconhecidas.
Da mesma forma que o avançar da tecnologia que se dá nos países desenvolvidos e muito lentamente vai chegando aos menos evoluídos, as agressões ambientais, traduzidas pela poluição, nos países adiantados, vão sendo cuidadas todas ao mesmo tempo, desde as formas mais evidentes ate às mais complexas e nem tão visíveis como a poluição por óxidos de nitrogênio que têm uma atenção especial e são cuidadas, todas, com igual rigor. Já, nos países menos evoluídos, uma das formas de poluição que mais salta aos olhos é a poeira na atmosfera, evoluída das chaminés e lanternins (telhados) das fábricas e de outras atividades, como sejam, o oxi-corte e as queimas diversas ao ar livre e que ainda nem são cuidadas.
Seja como for, o controle da poluição do ar começa pelo combate à poluição por particulados (poeiras), todavia, enquanto as nações em desenvolvimento ainda batalham para eliminar esse tipo "primitivo" de poluição, as nações mais evoluídas já tem a tem como página virada e partem para resolver outras etapas, como a poluição pelo CO2 (dióxido de carbono ou gás carbônico), causador principal do efeito estufa; pelos óxidos de enxofre e nitrogênio, causadores da chuva ácida; e pelos CFCs (clorofluorcarbonos), causadores da destruição da camada de ozônio e fortes contribuintes para o efeito estufa. E já aposentaram há muito tempo, por exemplo, o amianto como isolante térmico e controlam com eficiência toda a forma de emissão de hidrocarbonetos cancerígenos.
Se, agora, a situação for analisada pelo lado hídrico, vê-se que a história se repete. Enquanto os países em desenvolvimento ainda se encontram no privitivismo do tratamento dos esgotos sanitários e ainda têm muito a caminhar no que diz respeito aos esgotos industriais, nos países adiantados já se cuida da águas para o consumo humano sem trihalometanos e sem benzo-a-pireno e ainda com teores rigorosamente controlados de outras impurezas, como, por exemplo, metais pesados. Coliformes fecais, vibriões coléricos e outros menos votados, já caíram no esquecimento pelas bandas de lá, onde também já aposentaram há muito tempo o ascarel como óleo de transformador, o aldrim como defensivo agrícola etc.
Já, pelo lado dos resíduos, nós, menos evoluídos, ainda estamos às voltas com os lixões anti-higiênicos e outros tipos de lixo que maltratam a qualidade das preciosas águas doces dos mananciais subterrâneos e de superfície, levando toda sorte de doenças ao usuários dessas águas. Aterro controlado ou outras formas de destinação de resíduos já são assuntos resolvidos nos países adiantados; por lá, a preocupação é com o lixo nuclear.
A própria evolução tecnológica, por sua vez, vai mostrando, com o tempo, malefícios de produtos que eram ou são de uso corriqueiro e que eram tidos como inofensivos ao ecossistema e, em particular, à saúde humana. Vejam o caso do DDT. Quem não se lembra? Usado para eliminar aqueles incômodos piolhos; também o caso do BHC para matar baratas e do ascarel, dielétrico para transformadores, muitas vezes inocentemente utilizado, há alguns anos, como desengraxantes das mãos e do corpo. Não se esquecendo do próprio CFC que, muito tempo mais tarde de sua ampla utilização é que veio a se constatar o estrago que ele estava fazendo com a camada de ozônio da estratosfera.
Infelizmente, por aqui, embora saibamos disso tudo que é prejudicial, as providências a respeito chegam bem mais tarde e não temos como amenizar, em curto prazo, a situação, principalmente por falta de recursos financeiros. Com isso, a lógica indica que temos mesmo é que combater inicialmente aquilo que for mais primitivo e gritante, direcionando, para isso, com inteligência os poucos recursos. Em outras palavras, de que adianta realizar esforços para combater emissões de gases que destroem a camada de ozônio, que provocam o efeito estufa ou que geram as chuvas ácidas se ainda nem chegamos perto do combate às agressões do meio ambiente por particulados na atmosfera?
O certo e triste, infelizmente, para a nossa saúde e para preservação de nosso meio ambiente é que, a todo refinamento que atingirmos, já estaremos ultrapassados, porque refinamentos de refinamentos já estarão sendo postos em prática no Primeiro Mundo.
Gil Portugal