COMO SE POLUI UM RIO PARTE II
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Gil Portugal (fevereiro/91)

Finalizando este artigo, vejamos as outras formas de se poluir um rio.

Lixeiras - Uma lixeira (local de disposição de lixos domésticos, chamada lixão, aterro sanitário) deve se constituir num sistema de proteção que preveja o recolhimento dos percolados e do "chorume", que nada mais é que um "caldo" altamente orgânico e que demandará um grande consumo de oxigênio ao chegar a um curso d’água; não se contando aí, a possibilidade do lixo conter patogênicos, se for oriundo de hospitais.

Lixos Públicos - As populações ribeirinhas têm, no geral, o costume de lançar seus lixos diretamente nos rios por suas margens; isso significa mais material orgânico a demandar oxigênio bem como, materiais biodegradáveis como metais e plásticos que se não afetam diretamente a saúde do rio, irão causar transtornos aos sistemas de captação das águas para tratamento.

Esgotos Sanitários - Está aí a causa maior da alta demanda bioquímica de oxigênio (consumo de oxigênio) de um rio. Estudos mostram que, para cada pessoa, o esgoto produzido demanda, por dia, um consumo de 54g de oxigênio das águas do rio, isso sem contar os prejuízos dos não biodegradáveis que irão influenciar, por efeito direto, na saúde da flora e da fauna.

Atividades Pastorís - A criação de animais implica numa concentração não natural de espécies e consequentemente, em conseqüência, focos concentrados de dejetos altamente orgânicos a sacrificar os cursos d’água, localizadamente.

Abatedouros - Da mesma forma, há uma concentração não natural de fontes altamente demandáveis de oxigênio nos cursos d’água, além de outros inconvenientes, como exemplo, as penas que constituem um grande transtorno de filtração primária nas estações de captação de águas para tratamento.

A Poluição Atmosférica por Particulados - A geração e lançamento ao ar de partículas pelas diversas atividades industriais têm o efeito de cobertura constante dos solos e vegetais. Tais partículas, mais cedo ou mais tarde, por efeito das chuvas, irão atingir os cursos d’água, causando efeitos de assoreamento e de turbidez.

Os Pós de Varrição - Da mesma forma, as partículas geradas nas vias públicas por veículos, principalmente, irão, mais cedo ou mais tarde, alcançar um curso d’água.

Efluentes Líquidos de Hospitais e Laboratórios - Não se tem notícias de que haja tratamentos nesses casos; isso leva, evidentemente, à poluições de caráter patogênico e químico, respectivamente.

Os Aterros Industriais - O fenômeno de lixiviação de metais nos aterros industriais, sem uma perfeita proteção do solo, infiltram para os aqüíferos subterrâneos esses metais em dissolução, terminando seu deságüe em curso d’água.

As Micro-Atividades - Oficinas, postos de gasolina, fundições, galvanoplastias, cemitérios etc. são contribuidores constantes de óleos, outros orgânicos e metais.

A Poluição Térmica – O lançamento de águas quentes num rio causará, de imediato, fenômenos localizados de desoxigenação pois, o calor favorece a dissipação do oxigênio dissolvido; além disso, a faixa de temperatura de sobrevivência de peixes e muitos microorganismos é bastante estreita e, ainda, alguns vegetais têm sua proliferação acentuada com o aumento de temperatura.

A Poluição por Tensoativos - Os sabões influenciam para desequilibrar a tensão superficial vital para espécies de animais que dela dependem para sobreviver; como exemplo a flutuação das aves aquáticas, as bolhas de ar do besouro d’água etc.

A Poluição por Potencial Hidrogeniônico - A acidez ou basicidade acentuada, fora da normalidade das águas, podem levar a mortandade de peixes, muito comum junto a despejos de usinas de açúcar de cana.

A Poluição por Valor Osmótico - O fenômeno da passagem de líquidos através de membranas semipermeáveis, na direção do menos saturado para o mais saturado, aplica-se à vida de animais acostumados ou à água doce ou à água salgada. Dessa forma, o lançamento de grande quantidade de sais em água doce é uma forma de poluição e, paradoxalmente, o lançamento de águas doces e límpidas no mar é, também, forma de poluição.

Bem, leitor, vou parar por aqui, mas queria que ficasse registrado que o assunto "saúde de um rio" é muito mais complexo do que se pensa.

Hoje, como temos assistido, a preocupação recai quase que exclusivamente nas indústrias. É mais fácil forçá-las a não poluir, porque os recursos para tal não saem de verbas públicas e as tecnologias não precisam ser pensadas por organismos públicos para que descubram aquelas de maior benefício a menor custo etc.

Com isso, apenas um dos enormes tentáculos do polvo vem sendo cuidado: a poluição devido às indústrias.

Este artigo tem a finalidade de chamar a atenção para a abrangência do assunto e se refere às formas de poluição.

Quanto à despoluição, a certeza é que, deixar de poluir é uma forma de despoluição pois, os cursos d’água são notavelmente auto-renováveis, bastando que se diminuam as causas de sua degradação para que eles se recuperem paulatinamente.

 

Gil Portugal