O LAGO CLEAR
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Gil Portugal (outubro/89)

Numa bela região montanhosa, a cerca de 140 quilômetros de São Francisco, na Califórnia, situa-se o Lago Clear, preferido dos pescadores da região.

Clear em inglês significa claro, o que, na realidade, não condiz, pois as águas são turvas devido ao limo negro e mole que cobre o leito raso do lago.

Acontece que esse lago é "habitat" de um pequeno mosquito que não é sugador de sangue, mas que incomoda tremendamente pela quantidade.

A tentativa de controle desse mosquito por métodos naturais não surtiu efeito.

No final da década de 40 resolveu-se apelar para um inseticida a base de hidrocarboneto clorado, denominado DDD, muito aparentado com o DDT, mas que, aparentemente, era menos perigoso à vida dos peixes.

Cientificamente, determinou-se o volume do lago e decidiu-se por uma aplicação mínima, que foi 1 parte de inseticida para 70 milhões de partes de água.

O controle do mosquito começou a mostrar efeitos, todavia, cinco anos mais tarde, como persistiam, resolveu-se fazer uma nova aplicação, desta feita, na proporção de 1 para 50 milhões. Virtualmente o controle foi completado.

No inverno que se seguiu começou-se a notar que outras espécies animais estavam sendo afetadas; os mergulhões começaram a morrer. Os mergulhões são aves de ninhadas e também visitantes do inverno, atraídos pela abundância de peixes do lago.

O mergulhão é uma ave de aparência espetacular e hábitos enganadores; constrói seus ninhos em lagos rasos na parte ocidental dos Estados Unidos e Canadá. Lá, é denominado "mergulhão-cisne" e com razão pois, desliza pela água sem produzir encrespamento algum na superfície; o corpo nada baixo, ao passo que, o pescoço branco e a cabeça negra brilhante são mantidos em boa altura. Os filhotes, recém-nascidos, são revestidos de penugem acinzentada muito macia e poucas horas depois do nascimento, cada filhote ruma para a água, às costas do pai ou da mãe, aninhado-se por baixo da asa paterna ou materna.

Em 1957, um novo ataque de DDD foi feito e mais mergulhões morreram. Moléstias contagiosas foram pesquisadas nas aves mortas e nada foi detectado. Quando, porém, resolveu-se analisar o tecido graxo dos mergulhões (aquele que permite sua flutuação), encontrou-se a extraordinária cifra de 1.600 partes de DDD por milhão de partes.

Ora, numa aplicação de 0,02 partes por milhão nas águas do lago, como foi possível que esse inseticida se concentrasse a 1.600 partes?

Aprofundadas as pesquisas em outro organismo do lago, chegou-se a conclusão: Organismos do plâncton continham 5 partes por milhão; os peixes herbívoros que se alimentavam dos plâncton acumulavam de 40 a 300 partes; os peixes carnívoros que se alimentavam dos peixes herbívoros apresentavam acúmulos fantásticos que atingiam até 2.500 partes, na família do bagre.

Aquilo era como uma louca seqüência onde, os carnívoros maiores tinham comido os carnívoros menores, que tinham comido os herbívoros, que tinham comido o plâncton, que tinha absorvido veneno contido na água.

O extraordinário é que análises da água mostravam que não havia vestígios do DDD; o veneno não tinha, porém, abandonado o lago mas, encaminhado para o contexto de vida que o lago sustentava. No plâncton, o veneno passava de geração em geração. Também, nos peixes, aves e sapos examinados, depois de um ano da última aplicação do DDD, encontrou-se o veneno, inclusive nas gerações subseqüentes. As colônias reprodutoras de mergulhões se reduziram de 1.000 casais, antes do primeiro tratamento com o inseticida, para cerca de 30 em 1960 e todo o acasalamento deles foi em vão pois, nenhum mergulhão novo foi observado.

E na outra extremidade da cadeia, o homem?

Pesquisas recentes revelaram que o DDD suprime violentamente a função do córtex suprarenal humano.

O aprendizado que ficou é que o inseticida, mesmo aplicado em concentrações baixíssimas, apresenta um aspecto "explosivo" de concentrações nos organismos vivos.

E fica a pergunta: será prudente ou desejável fazer uso de substâncias capazes de tão poderoso efeito sobre os processos fisiológicos, para o controle de insetos?

Adaptado do Livro "Primavera Silenciosa" de Rachel Carson (Edições Melhoramentos, 1964).

 

Gil Portugal