Gil Portugal (outubro/97)
Recentemente recebi um convite para proferir uma palestra a respeito desses dois temas. A pergunta básica era: até que ponto o "lixão" de Volta Redonda afetava a floresta da Cicuta, visto que a posição desse lixão favorecia que suas águas poluídas atravessassem a floresta?
A Cicuta, considerada Área de Relevante Interesse Ecológico, por Decreto, é um dos remanescentes de Mata Atlântica e o trecho preservado se situa no "quintal" de Volta Redonda, com 1.130 hectares.
A floresta, muitos chamam de "mata", é nativa e como em muitos casos nesse Brasil vinha sendo destruída através de desmatamentos e pela caça dos animais habitantes do local, ou simplesmente pelo seu uso predatório.
Muitos destroem a vegetação nativa com intuito de abrir espaços para finalidades as mais diversas e ainda se aproveitarem para comercializar madeira. Todavia a biodiversidade, isto é, a multiplicidade das espécies existentes num ecossistema rico de tal natureza, deve ter sua preservação vigiada e defendida, haja vista que, de sua permanência ou aproveitamento, poderá estar baseada a sobrevivência sadia da espécie humana. Pouco a pouco, a comunidade científica vem conseguindo extrair da flora e da fauna importantes medicamentos e ensinamentos úteis ao homem.
A farmacologia, cada vez mais adiantada no mundo, busca incessantemente, na flora e na fauna, novos medicamentos. Se uma espécie que seja for extinta, com ela desaparecerá a chance dessa busca e nem ficaremos sabendo o que poderia ter sido descoberto em nosso próprio benefício.
Dezenas de razões da necessidade da preservação das florestas, mormente nativas, são marteladas diuturnamente, a fim de levar à conscientização cada vez mais freqüente de que preservar é preciso. Fala-se no clima do Planeta, nas erosões que carregam terras boas para o cultivo, nos assoreamentos, no oxigênio que se respira, sendo que, cada tema desses poderia ensejar debates de longas durações e sempre levando à conclusões incontestáveis em favor da preservação.
Se a preservação é importante, importante é também recuperar o que foi perdido pelo mau uso ou pela destruição proposital. Fazer essa recuperação, todavia, requer o conhecimento do que foi subtraído do original e procurar refazer com as mesmas espécies o território "perdido"; contudo, para que isso seja possível, há de ter sobrado alguma coisa. Dessa forma, quando se fala, por exemplo, em manter intacta uma flora rica como a Mata da Cicuta, resquício de Mata Atlântica, a razão é simples: ali se concentram espécies raras de vegetais e só elas poderão fazer renascer o primitivo.
O povo de Volta Redonda tem o privilégio de possuir em seu "quintal" esse pedacinho da Mata Atlântica, identificado como um dos poucos refúgios de animais da Mata Atlântica e resistente às glaciações ocorridas em épocas passadas, em toda a sua extensão (a Mata Atlântica vai (ou ia) do rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul).
A Mata da Cicuta está situada, em sua maior parte, em território barramansense (85%) e felizmente está preservada por Lei e, por que não dizer, pela consciência do povo de Volta Redonda que conhece a sua importância.
Quanto à influência do "lixão" de Volta Redonda nessa floresta, podemos afirmar que ele afeta suas águas e consequentemente, sua fauna que, não bebendo água tratada, sentirá os efeitos como qualquer de nós sentiria se delas fizéssemos uso diariamente.
O caldo orgânico chamado chorume, oriundo de um depósito de lixo, é bem mais pernicioso do que o esgoto sanitário, visto que carrega consigo metais pesados de toda a sorte, e outras substâncias tóxicas que são descartadas no lixo do dia a dia, além de patogêneses as mais variadas que provêm de hospitais e laboratórios clínicos.
Quanto ao nosso "lixão", posso afirmar que ele está bem gerenciado técnicamente, em relação a outros que conheço, todavia, cabe a pergunta: as técnicas de implantação foram observadas antes que nele se colocasse a primeira grama de lixo?
Para o caso do nosso "lixão" há que se considerar que não há tratamento algum para o chorume e embora ele esteja contido em tanques, as chuvas o levam para o interior da floresta. Existem soluções mitigadoras todavia e creio que já estão sendo pensadas pelos seus administradores.
Além disso, pudemos observar que o Rio Brandão, bem longe ainda de nossa cidade, praticamente em sua origem, recebe forte carga poluidora dos esgotos domésticos "in natura", provenientes dos bairros Roma I, Roma II e Parque das Garças, situados em Piraí (do outro lado da Via Dutra). Tais esgotos vão se juntar aos demais líquidos produzidos no aterro de lixo a jusante.
É hora de colocarmos em prática todas as medidas que concorram para a preservação e para o uso racional da Floresta da Cicuta. As fontes de recursos existem e da racional utilização delas surgirão os tão propalados benefícios em prol daquele importante ecossistema e os que ele pode fornecer à nossa comunidade científica.
Gil Portugal