A CSN e o Meio Ambiente
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Gil Portugal

Volta Redonda, 25 de fevereiro de 2000

Prezado Luiz Cláudio,

Há cerca de dois meses, no Jornal “aQui”, você fez uma referência nada elogiosa à minha pessoa e ao meu trabalho quando à frente do Meio Ambiente da CSN. No mesmo dia escrevi o artigo que vai abaixo e o remeti ao Jornal. Todavia, pela extensão do texto o jornalista me disse que não poderia publicá-lo na íntegra e dessa forma, pedi a ele que não publicasse. Embora pudesse exigir a publicação, não o fiz, visto que resolvi, de moto próprio, não estender uma polêmica.

Não tenho a intenção absoluta de “bombardear” o seu trabalho. Reconheço que ele é arduo e complexo, visto que já estive na mesma situação e sei o que sofri através de inúmeras inimizades que adquiri junto aos superintendentes gerais da UPV, dos quais cobrava impiedosamente o conserto de situações agressivas ao meio ambiente derivadas dos processos de suas respectivas áreas. Embora tivesse o apoio integral do Diretor Industrial à época, Eng. Faria, tal apoio só servia para aumentar ainda mais o acirramento dos ânimos contra a minha pessoa. Enfrentava sozinho as reclamações das comunidades de Volta Redonda e a Imprensa em geral pelas agressões que reclamava desses desacertos.

A minha declaração em um recente programa de TV, certamente não o agradou, tão pouco ao Secretário de Meio Ambiente, mas não me culpe de que às vezes não consigo segurar minha língua quando a verdade está atravessada na minha garganta.

Não me queira mal, não sou seu inimigo.

Um abraço do

Gil Portugal

 

DIREITO DE RESPOSTA

 

Sempre vim procurando situar a posição ambiental da CSN em termos estritamente técnicos.

Sempre que fiz referências ao atual superintendente de meio ambiente da CSN, Biólogo Luiz Cláudio Ferreira Castro, elas foram elogiosas à sua competência, afirmando que ele tem uma missão muito árdua a cumprir e manifestando sinceros desejos de sucesso.

Não esperava que o Biólogo Luiz Cláudio fizesse um ataque direto à minha pessoa neste “Jornal aQui”, no 99, pg. 15, e à minha equipe, à época que ocupava o cargo hoje ocupado por ele, declarando, nesse ataque, que à minha época não se fez nada.

Seria deselegante de minha parte se dissesse que o Biólogo Luiz Cláudio, quando funcionário da FEEMA, nada fez em face da poluição da CSN?

O meu recolhimento, a partir da data em que saí da CSN, abril de 1993, até agora, se prendeu a dois fatos: o ético, visto que conhecia profundamente a situação ambiental da CSN, tanto em Volta Redonda, quanto em Minas Gerais, quanto em Santa Catarina; o segundo fato residia na esperança de que, o Termo de Compromisso assinado pela CSN/FEEMA em 1994 fosse cumprido até 1999, data aprazada no Termo. Aliás, isso foi uma obrigação aposta ao Edital de Privatização e assumida pelos novos donos da CSN. Não se cumpriram, todavia, nesses cinco anos de empresa privatizada, 20% do compromissado e a CSN, aproveitando-se da Medida Provisória do Presidente da República, referente à Lei de Crimes Ambientais, declarou-se poluidora e irá assinar por esses dias novo Termo de Compromisso, com conclusão das obrigações em 2.002, ou seja, mais três anos de poluição.

À época da minha gestão à frente do meio ambiente da CSN, tratando-se de uma empresa falida e quase fechada pelo Governo Collor, o meio ambiente, para os seus dirigentes, era questão de segunda ordem; importava a sobrevivência da empresa a qualquer custo, o que foi conseguido com muitas ações de sua alta direção, algumas dolorosas, por sinal.

De meu canto, nas minhas funções, sem recursos financeiros, o que poderia fazer era, através de medidas simples e baratas, tentar amenizar os impactos ambientais oriundos do setor produtivo.

A vigilância era constante e as cobranças permanentes aos chefes de setores traziam grande desgaste para mim e para minha equipe, junto aos superintendentes gerais da produção.

A cada emissão no lanternim (telhado) da aciaria, por exemplo, abria-se uma apuração interna para descobrir as causas e a cobrança pelos erros operacionais era forte. Com isso, observavam-se, no máximo, três emissões por dia.

style="mso-spacerun: yes"> Hoje, chegam-se a contar, durante a luz do dia, vinte, e até em cores que não existiam outrora.

Controlavam-se rigorosamente as células de resíduos perigosos em Volta Grande, com o retorno à UPV dos líquidos poluentes para tratamento na Estação de Tratamento Biológico. Após minha saída, simplesmente aquela área foi abandonada, colocando por terra, por mais de cinco anos, todo o trabalho que vinha sendo feito.

A implantação de barreira flutuante à saída do principal emissário da UPV para o Rio Paraíba do Sul foi de nossa época e coube a esse que assina e ao Técnico Sebastião Marques a patente da invenção. Ela servia (serve) para que parte dos óleos fugitiva não alcançasse o Rio Paraíba do Sul.

Durante o início de minha gestão, a freqüência de vazamentos de óleos para o Rio Paraíba do Sul levou à necessidade de um completo redescobrimento da malha hídrica da Usina Presidente Vargas, num trabalho que durou mais de seis anos, vindo a ser concluído logo após minha saída. Quantas vezes, de madrugada e sob chuva, íamos à UPV levantar bueiros para tentar localizar a origem dos óleos fugitivos.

A instalação do precipitador eletrostático na chaminé principal da Sinterização #4 foi uma festa, visto que a emissão de poluentes (particulados) superou as expectativas do projeto que era para 50 mg/Nm3 e atingiu, na inauguração, o valor 8, fazendo com que a emissão daquela chaminé ficasse invisível. Hoje, pode-se ver a emissão claramente.

O Bairro do Conforto ainda padece do mau cheiro proveniente da Estação de Tratamento de Efluentes Oleosos – ETEO e não houve tempo para que resolvêssemos o problema. Passados mais de seis anos o mau cheiro ainda lá está, incomodando e desvalorizando o patrimônio dos moradores.

Ainda o Bairro Conforto, que era o terceiro colocado em poluição por partículas em 1993, hoje disputa com Belmonte e Retiro a primeira colocação.

Os vazamentos das portas das baterias de coque, grandes fontes de emissão de benzeno, eram rigorosamente controlados por dois métodos (um interno e o outro da EPA-americana). Hoje, por não estarem as portas das baterias no nosso alcance visual, não sabemos como está esse controle.

Continuam, e até em ritmo muito maior, as emissões da casa de corridas do Alto-Forno 3 e do Alto Forno 2 e “Stock Houses”(?)(fora do alcance visual e face as emissões serem paralelas ao piso) sendo que, no caso do Alto Forno 3 teremos que agüentar suas grandes emissões de pós até sua reforma em 2.001, segundo dito em Seminário na ACIAP por dirigentes da CSN (Albano e Luiz Cláudio). Não seria o caso, aí, de se fazer um aditamento no PAC (Programas Ambientais Compensatórios) para indenizar a população de Volta Redonda por essa espera?

As emissões devidas às limpezas dos carros torpedo e aos desenfornamentos das baterias de coque, continuam.

Cheiros fortes e sufocantes de gases sulfurosos volta e meia invadem a cidade, como aconteceu no último sábado, dia 4 de dezembro, à noite, no Bairro Conforto, e por aí afora.

Se puxar pela memória, pode ser que me lembre de alguma coisa a mais.

Ainda bem que o Superintendente de Meio Ambiente dispõe, agora, de recursos financeiros para acertar a situação ambiental da CSN.

O fato é, Biólogo Luiz Cláudio, que moram em Volta Redonda meus filhos, nora, netos e meus amigos, convivendo diariamente com a qualidade de vida que a CSN nos proporciona. Provavelmente, o Sr. e os diretores dessa empresa e seus familiares aqui não residam.

Uma coisa é certa, estarei sempre alerta e vigilante em prol desta cidade que me adotou há 36 anos, denunciando as agressões que forem praticadas contra o meio ambiente por essa empresa e por qualquer outra.

Biólogo Luiz Cláudio, conte com o apoio e os conhecimentos deste aposentado que abaixo assina, visto que ele deseja tão somente a saúde e o crescimento dos cidadãos de Volta Redonda.

 

Eng. Gil Portugal