Gil Portugal
(agosto de 1992)
Em
recente programa “Globo Repórter” uma cena pode ter causado revolta ou
espanto aos telespectadores; ela se referia à desova de tartarugas; milhares
delas que vinham à praia para depositar mais de uma centena de ovos (cada uma)
e enterrá-los na areia. A cena que parecia chocante era de um bando de urubus
que só aguardavam a desova para se banquetearem gulosamente com os ovos;
calculou-se ali que mais da metade dos ovos eram devorados. Gente, isso aí é
natural, absolutamente natural. As espécies têm seus predadores porque a
Natureza, sábia, assim quis, para que o Planeta não se superpovoasse de uma ou
de outra, haja vista que suas condições de sobrevivência dependem, para cada
espécie, dos mesmos recursos que, sendo disputados por muitos da mesma espécie,
não dariam para atender a todos. Os exemplos a serem citados são inúmeros.
E
a espécie humana? Quanto mais possa existir tecnologia, sendo os recursos
naturais finitos, a multiplicação exponencial da raça humana tenderá à
autodestruição dos homens, visto que não há depredadores naturais da espécie
humana, salvo as guerras, as violências urbanas, alguns desastres naturais e
algumas doenças ou epidemias.
Por
ocasião da Rio-92 lá havia um relógio digital que indicava que a cada segundo
nascem no Planeta Terra 3 seres humanos e que em cada 8 segundos o equivalente a
área de um campo de futebol se torna árido. Se espicharmos um pouco esses
tempos, podemos fazer a espantosa comparação (Revista Veja). “Enquanto o
Presidente Bush discursava em 6 minutos e 50 segundos, nasciam no Mundo 1230
pessoas que era mais ou menos o número de pessoas que o assistiam no Plenário
da Rio-92 e nesse minúsculo tempo, tornava-se imprestável ao cultivo uma área
equivalente a 8 Rio Centro”.
Outros
dados espantosos: nos doze dias que durou a Conferência o mundo recebeu 31 milhões
de novos habitantes, ou seja um Uruguai inteiro e perdeu o equivalente a uma
cidade de São Paulo em terras férteis.
O
pior de tudo isso é que, de cada 10 pessoas que nascem 9 são de países pobres
e embora a mortalidade aí seja também maior, existe a explosão populacional e
a pressão sobre os recursos naturais se torna por vezes insuportável pela
falta absoluta de tecnologia e pela premência, devido à pobreza, de
utilizar-se do que está disponível e de graça. Isso não quer dizer que os países
ricos não abusem dos recursos naturais, abusam também, de forma impiedosa mas,
pelo menos lá, há censores em maior número e gente em menor número. Quanto
à superpopulação nos países pobres, vê-se neles uma cruel distribuição
desigual das riquezas e daí, a miséria.
A
disponibilidade mundial de alimentos vem crescendo em ritmo inferior ao
crescimento de habitantes do Planeta; a água doce disponível e limpa vai se
tornando cada vez mais escassa; a capacidade dos mares e dos rios de fornecerem
alimentos está se exaurindo; o ar está dada vez mais irrespirável etc etc.
E há ainda segmentos da sociedade que se batem contra o controle da natalidade, duvidando que a explosão demográfica seja uma bomba de efeito retardado prestes a nos destruir a todos, ricos e pobres.
Gil Portugal