Gil Portugal
(2001)
Thomas
Robert Malthus (1766-1834), há 200 anos, em seus ensaios, perguntava: "há
limites, afinal, para a população que a Terra pode alimentar?" e
continuando, "a população tende a crescer mais rápido que a produção
de comida".
Sábado,
dia 4 de novembro, ao lado da minha coluna, com o título "Dando férias à
fábrica Natureza", estava a carta de dois leitores de São Paulo tratando
do tema, razão deste artigo. Os dois missivistas abordaram com muita firmeza o
controle da natalidade, sob o principal prisma da paternidade responsável,
basicamente defendendo a tese de que "só deve ter filho quem puder
cuidar".
Toda
vez que alguém, de alguma forma, escrevendo ou falando, defende a tese do
controle amplo da natalidade é, em seguida, bombardeado de críticas, razão
porque o tema é realmente polêmico e porque não dizer, pura nitroglicerina.
Por esse motivo, reputo de grandemente corajosos aqueles que expõem seus pontos
de vista na defesa do controle amplo da natalidade. Eu mesmo já escrevi a
respeito. Não tão enfaticamente como os missivistas em tela, defendendo também
a tese da paternidade responsável onde, em rápidas palavras, expunha a
necessidade de que todos aqueles que pusessem um filho no mundo seriam os
responsáveis primeiros pela sua saúde, educação e comportamento perante a
sociedade.
As
instituições que abrigam menores infratores, principalmente as de São Paulo,
estão constantemente na mídia, mostrando rebeliões e destruições do patrimônio
público e mortes em conflitos. Hoje mesmo, a televisão anunciou que cada menor
nessas instituições chega a custar R$ 1.700,00 mensalmente, um verdadeiro
absurdo; dinheiro que hoje sustentaria, embora mal, cerca de dez famílias.
Os
argumentos ideológicos e religiosos sustentam, respectivamente, que em nosso
Brasil há espaço para suportar uma grande taxa de crescimento populacional e
os casais têm o livre arbítrio para terem o número de filhos que bem
desejarem.
Em
ambos os casos, os argumentos são de raízes muito profundas e, por isso,
defendidos tenazmente. Nessas defesas, porém, evita-se comentar que, na nossa
cultura, se não houver métodos anticoncepcionais, que não deixem dúvidas de
que uma gravidez não desejada venha a acontecer, fatalmente ela ocorrerá,
visto que o prazer do ato sexual é um dos poucos entretenimentos ao alcance dos
pobres e que não custa nada.
De
outra feita, é muito comum, nas classes mais pobres, o desejo de ter filhos que
venham ajudar e em muitos casos, pela ambição de alcançar as vantagens que
nossa legislação oferece, quando do nascimento do filho, como o auxílio à
maternidade, a licença de quatro meses à gestante, a licença de oito dias
para o pai e o salário família quando o pai está empregado. Benefícios esses
enxergados como melhoria de padrão de vida; grande ilusão. Todavia, tal ambição,
hoje, não faz tanto sentido, visto que uma grande massa dos trabalhadores está
fora do mercado de trabalho formal e não tendo carteira de trabalho, não
desfruta dos benefícios citados.
Com
certeza, a situação de pobreza da família leva a uma maternidade desassistida
e uma gravidez desassistida tem influência direta na formação física e,
principalmente, mental da criança, desde o útero.
Por
outro lado, muitas vezes também, uma gravidez que veio por motivos que não
puderam ser controlados, leva ao crime hediondo, que é o aborto.
Em síntese e para finalizar, fica a questão daquilo que se tornou comum de se ver em todos os lugares e de forma cada vez mais crescente: crianças abandonadas, exploradas, prostituídas e com um futuro (se houver) quase certo para a criminalidade.
Gil Portugal