Gil Portugal
(setembro
de 1995)
O
catador de lixo, no geral, é encarado pela sociedade como aquele pária, sujo e
de quem se quer distância.
Praticamente,
são dois os tipos de catadores de lixo e que todos sabem de sua existência,
mas que a sociedade simplesmente faz questão de ignorar: aqueles que recolhem
os rejeitos diretamente das ruas ou dos usuários e aqueles que recolhem os
rejeitos diretamente dos chamados lixões, em todos os casos visando a
comercializaçao desses rejeitos.
Nos
países ricos, onde a reciclagem de resíduos já é um fato embutido na consciência
dos cidadãos e apoiado por infra-estrutura para recolhimento e destinação ou
destruição, os catadores, lá remanescentes, são catadores com hábitos e
inspirações diferentes. É comum haver locais específicos para armazenar
provisoriamente o “lixo rico”: sofás, geladeiras e outras utilidades domésticas
que podem ser utilizadas com pequenos reparos. Tais catadores não sobrevivem do
lixo, mas, apenas, utilizam-se desse lixo rico” para mobiliar suas casas ou
trocar um utensílio.
Nos
países pobres, o lixo rico não existe, e quando aparece, o próprio
encarregado da coleta urbana fica com ele.
Antes
de prosseguir, façamos uma pausa para distinguir as expressões “resíduos”
e “rejeitos”. Podemos dizer que resíduo é aquilo que sobrou de uma fabricação
ou de um uso e que não mais interessa à fabricação ou ao uso. A limalha
derivada de um torno que fabricou uma peça é resíduo, a casca da batata que
descascamos é um resíduo, a comida que sobrou no prato é resíduo. O resíduo
é, então, algo significando “o resto”. Já, o rejeito, podemos dizer que
é o resíduo que foi para o lixo, isto é, sua destinação final foi decidida:
lixo.
O
resíduo não será rejeito se for dado a ele uma destinação outra que não o
lixo. No geral, chama-se essa destinação de reciclagem ou de reutilização.
Voltemos,
agora, aos catadores dos países pobres; sua ação é exatamente essa: evitar
que resíduos virem rejeitos e com isso, tendo em vista o valor agregado (ou
valor residual), obterem um ganho em dinheiro.
Pensando
em termos ambientais e mesmo em termos de economia para a nação, não é
necessário nenhum esforço para afirmar que os catadores são, para a
sociedade, seres de grande valor sócio-econômico.
Esses
são os prós, e quais seriam os contras?
É
evidente que os catadores dividem o lixo com toda a sorte de agentes nocivos à
saúde, quer os vetores invisíveis, constituídos por bactérias, quer com
animais que por lá coabitam, como ratos, moscas, baratas, cães etc. Dessa
forma, os catadores, quando voltam ao convívio na sociedade, poderão trazer
consigo doenças, da mesma forma que os animais citados.
Ora, levando em conta que a segregação domiciliar de resíduos ainda não é um hábito entre nós e a utilizada pelos catadores, aliada ao perigo citado, o bom senso indica que eles devam ser integralmente assistidos e não considerados seres desprezíveis ou inexistentes.
Gil Portugal