Gil Portugal (abril/96)
Os profissionais da área tecnológica são basicamente aqueles que pertencem ao universo da engenharia, da arquitetura e da agronomia e afins, abrangendo tanto a formação de nível superior, quanto a de grau médio.
O Artigo Primeiro da Lei 5194/66, que rege as profissões do engenheiro, do arquiteto e agrônomo, diz: "As profissões de engenheiros, arquitetos e engenheiros agrônomos são caracterizadas pelas realizações de interesse social e humano que importem na realização dos seguintes empreendimentos: a) aproveitamento e utilização de recursos naturais; b) meios de locomoção e comunicações; c) edificações, serviços e equipamentos urbanos, rurais e regionais, nos seus aspectos técnicos e artísticos; d) instalações e meios de acesso à costa, cursos e massas de água e extensões territoriais; e) desenvolvimento industrial e agropecuário".
Assim sendo, em outras palavras, as profissões citadas na Lei têm como base fundamental de atuação a transformação da natureza em vários níveis, para melhorar as condições de vida do homem. Nesse entender, esses profissionais têm tudo a ver com o desenvolvimento sustentável.
Da própria definição do que vem a ser a engenharia depreende-se, então, que ela está intimamente correlacionada à natureza, mais de que qualquer outro ramo das atividades humanas.
Desde a idéia de onde se tira a concepção de um projeto, passando pelo detalhamento, concepção, funcionamento e manutenção, há uma ligação íntima e constante com as leis naturais e o desrespeito aos "artigos" dessas leis acarretará "infrações" de gradações diferenciadas.
A noção do desenvolvimento sustentado (ou sustentável) indica que o homem tem o direito de colocar sua inteligência na produção e uso de tecnologias para o conforto de seus semelhantes, mas ressalva que esse direito tem limites e impõe deveres, haja vista que os recursos naturais, embora bens de uso comum do povo e portanto que podem e devem ser usados, são finitos e devem ser poupados para que outros, no futuro, também possam utilizá-los.
Com tudo isso, não é difícil deduzir que essas profissões são as molas-mestras que garantem ou devem garantir que os recursos naturais venham a ser convenientemente aproveitados e isso supõe uma estrita relação engenharia/meio ambiente para conduzir ao objetivo que é o bem estar social.
Hoje, a conscientização ecológica já existe e cresce a cada dia na nossa própria família, nas ONGs, nas associações de moradores, na imprensa etc., e freqüentemente dispara mecanismos políticos, visando a defesa do meio ambiente.
Acontece que esses mecanismos, muitas vezes, são insuficientemente fortes para gerar as ações políticas, porque carecem de fundamentações técnicas e/ou científicas para embasar suas razões. É onde a engenharia tem que comparecer com o seu quinhão de apoio.
Ao surgirem as ações políticas, obrigadas pelas pressões da sociedade e que impliquem na utilização de recursos naturais materiais ou energéticos primários ou deles oriundos, somente a engenharia, aliada a outros ramos de atividades, através de tecnologias apropriadas a cada caso, poderá traduzir com fidelidade se a utilização desses recursos está adequadamente planejada para que se possa fazer desaparecer ou aliviar aquelas pressões.
Considerando, todavia, que elevar os custos para promover uma proteção ambiental, em geral, não agrada ao detentor do capital, seja ele público ou privado, pois estará desviando esse capital de outras metas que tenha em vista, a ação do engenheiro terá papel relevante no convencimento em prol da causa ambiental, mostrando soluções criativas que indiquem retorno de capital diretamente em espécie ou indiretamente através da melhoria da imagem perante a opinião de pessoas e até junto aos organismos financiadores.
Felizmente, para nós, nossa engenharia, nesse mister, vem acompanhando todos os avanços que se produzem no mundo, produzindo também os seus próprios avanços e crescendo no rumo da desenvolvimento sustentável.
Gil Portugal