Gil Portugal (março/97)
Numa de minhas palestras sobre assuntos diversos envolvendo a preservação ambiental, resolvi perguntar à turma de jovens do auditório se fazia mal às águas de um rio lançar-se nelas óleo; a resposta sim foi unânime; a seguir, indaguei como se comportariam vendo uma pessoa deliberadamente jogar óleo no rio através de um bueiro na rua; as respostas, aí, variaram; uma parte respondeu que apenas se indignaria e outra parte que reclamaria do infrator, no ato. A estes últimos indaguei: e se o infrator lhe perguntasse por que não deveria jogar óleo e que mal isso iria fazer ao rio. Silêncio total, ninguém soube explicar.
O lógico é que, se reclamamos de alguém quando esse alguém comete um ato falho, devemos estar pelo menos, de posse de alguma base para fazê-lo e não simplesmente porque ouvimos dizer. Quando se diz: "é de pequenino que torce o pepino", quer se dizer que pepino velho quando se torce quebra. Em outras palavras, a educação é sempre mais efetiva se começada pela criança. A mente humana em formação é mais receptiva aos ensinamentos, razão da importância de um livro didático e os conceitos que ele descortina aos seus leitores e da importância do professor bem formado, passando mensagens irrepreensivelmente corretas.
Como foi bom eu ter tido bons professores que me transmitiram ensinamentos sem deturpações e que, hoje, me são extremamente úteis. Nessa questão de educação ambiental para crianças, de todas as discussões e debates havidos, conheço três vertentes de opiniões visando afirmar as melhores formas de se proceder à essa educação, no caso específico voltada aos alunos do primeiro grau.
A primeira vertente defende que deve haver uma disciplina específica para tratar do assunto a ser incluída no currículo escolar, tal qual a Matemática, o Português etc. Há, nesta vertente, aqueles que defendem extensões diferenciadas nos assuntos e no tempo de duração da disciplina.
A segunda vertente defende que a educação ambiental deva fazer parte do conteúdo programático da disciplina de Ciências.
Já a terceira vertente, na qual me incluo, defende que a educação ambiental deva ser passada aos alunos sem pré estabelecimentos de disciplinas e de professores específicos, isto é, a educação ambiental deve ser ministrada por todos os professores indistintamente, de forma natural e em doses homeopáticas, encaixando o assunto, onde puder caber em suas disciplinas, no desenrolar das aulas, como pílulas de informações.
A desvantagem que cito na adoção do critério defendido pela vertente (disciplina específica) é que uma disciplina fixada num espaço-tempo poderá acarretar caírem no esquecimento, no futuro, os ensinamentos transmitidos, e a educação ambiental é algo para não se esquecer e ser sempre reciclada.
A desvantagem que sinto na adoção do critério defendido pela segunda vertente (disciplina específica) é a exclusividade que se daria ao professor de Ciências de ensinar, ao seu modo, as ciências ambientais tão multifacetadas, além do que a educação viria como uma obrigação, podendo levar alguns alunos a se desgostarem do assunto para o resto da vida. Não existem casos de pessoas que odeiam a Matemática?
A desvantagem que sinto na adoção do critério defendido pela terceira vertente (disciplina livre) é que muitos professores (pepinos adultos) rejeitariam intimamente a idéia ou não iriam se esforçar para buscar encaixes apropriados dos tópicos das ciências ambientais em suas disciplinas.
De qualquer forma, a vantagem, neste último caso, é uma homeopatia no ensinamento, sempre de mais fácil digestão e o que é melhor, um ensinamento sempre reciclado e a longo prazo.
Aos meus colegas professores ficam essas idéias para serem debatidas ou simplesmente meditadas.
Gil Portugal