Gil Portugal (abril/98)
Em recente palestra em Volta Redonda, no mês de janeiro, na qual estive representando a Associação de Engenheiros e Arquitetos de Volta Redonda - AEVR, o presidente do CREA/RJ, José Chacon de Assis, destacou para um auditório lotado de entidades ambientalistas, líderes comunitários, ex-conselheiros e inspetores do CREA/RJ, autoridades municipais e empresas, um recente comentário raivoso contra a engenharia, após as grandes enchentes havidas na cidade do Rio de Janeiro, imputando toda a culpa do desastre à engenharia.
Admitiu, o presidente do CREA/RJ, em parte, a culpa: afinal, quem projeta os sistemas de drenagem que não os engenheiros? Todavia, isso seria bastante para jogar sobre a engenharia toda a culpa das tragédias?
Qualquer projeto de engenharia, após posto em prática, necessita ser operado e mantido com proficiência. Equipamentos e sistemas não são eternos, mesmos que conservados e, pior, se não conservados, falham em pouco tempo de uso. Até o grande "Engenheiro" que projetou e construiu a "máquina-homem" seria culpado se sua criação não tivesse duração infinita ou se adoecesse inesperadamente e morresse antes do tempo que pudesse ser considerado normal, comparado aos seus semelhantes?.
É muito comum ser negado o poder de supervisionar sistemas e equipamentos ou decidir sobre suas implantações ao engenheiro que os criou ou a um outro que deles entende. Da mesma forma, é negado, quase sempre, ao engenheiro, o poder de decidir quanto às previsões de caráter técnico de acontecimentos que, por certo, irão colocar em risco a comunidade em um futuro a curto, médio ou a longo prazo.
As decisões políticas e econômicas, na maioria das vezes leigas, prevalecem, pois são sempre mais poderosas.
É minha intenção comentar as recentes cheias na cidade do Rio de Janeiro, para concluir que não basta colocar em prática aquilo que nos parece bom, sem previsões um pouco mais além. Vamos lá.
Por que ocorrem enchentes? Se as chuvas fortes são inevitáveis, tem que haver meios de minimizar seus efeitos, a fim de que as conseqüências sejam menos danosas pelas perdas de vidas e prejuízos econômicos para a sociedade.
Se águas em excesso são despencadas do céu sobre a terra, só há um jeito: favorecer o caminho dessas águas para que elas "sumam" o mais rápido possível. E isso só será possível se não houver empecilhos nesses caminhos.
Os empecilhos de que falo são muitos, de várias tipologias e advindos de causas as mais diversas, quer diretas, quer indiretas. Vejamos algumas dessas causas: os desmatamentos, por exemplo, enfraquecem o solo pelo baque direto da chuva e pelo encharcamento não compensado pela absorção dos vegetais arrancados do solo. O solo amolecido é, então, carreado pelas águas, indo assorear canais e rios e entupir tubulações e galerias de águas pluviais (diminuindo, em ambos os casos, seus volumes geométricos, isto é, suas competências de conter o volume de águas que antes eram capazes de conter). Outro exemplo está nas encostas umedecidas e sob pressão de construções e lixos de toda a espécie, tendendo a desmoronar, carregando terra e lixo pelo caminho das águas.
Falemos, agora, de outro complicador que a vida moderna nos trouxe para o nosso conforto e que nos foi empurrado goela abaixo, sem a mínima previsão de seus efeitos danosos futuros, tais quais o foram outrora o ascarel, o CFC e o DDT. Trata-se do PET.
Se o PET fosse uma palavra da língua inglesa significaria, somente, um "bichinho de estimação".
Como, apesar do modismo de usarmos termos alienígenas a todo instante, essa palavra, com esse significado, só aparece em algumas lojas destinadas à venda de apetrechos e alimentos para os nossos bichinhos caseiros. Acontece que, quando PET significa polietileno, um derivado do petróleo que visa a fabricação de diversos tipos de embalagens descartáveis, a coisa muda de figura e passa a ser muito séria.
Se bem me lembro, foi há uns três anos: estava no Rio e saí com alguns cascos (de vidro) de Coca-Cola para comprar alguns litros e qual não foi a minha surpresa ao saber que o supermercado acabara de aposentar o vidro e dali para frente, só venderia o produto em embalagem PET.
Indignado, não por ter que jogar fora as dezenas de cascos de vidro que tinha em casa, o máximo que pude fazer foi escrever uma carta protesto para "O Globo", expondo que uma troca de hábito dessa natureza era tremendamente prejudicial para o Meio Ambiente.
A realidade é que, embarcamos na era do PET, do "conforto" do PET, sem estarmos preparados e sem que aqueles que permitiram a modernidade pensassem um pouco adiante e previssem a calamidade que hoje aí está, a troco de baratear o produto para o produtor (e consumidor) e ainda livrar o consumidor da "chatice" do troca-troca dos cascos de vidro.
Vocês, leitores do "FATOR", que tiveram oportunidade e a curiosidade de apreciar as últimas enchentes no Rio de Janeiro, puderam observar o que boiava naquelas águas. Eram sacos de lixo e principalmente, uma infinidade de garrafas plásticas (PET) de refrigerantes, de detergentes, de águas minerais, de óleos etc. Pois é, sendo as embalagens de PET muito leves, elas nunca afundam nas águas e vão sendo carregadas até onde essas águas deveriam escoar livremente, "engarrafando", literalmente, o trânsito das águas. O que acontece então? Bloqueio do escoamento nos ralos das ruas, nas valas, nos córregos e o que é pior, dentro de tubulações, podendo, aí, causar entupimentos difíceis de serem localizados e removidos.
Conta Alfedro Sirkis, em recente artigo em "O Globo", uma tragédia que resultou em dez mortes, em Jacarepaguá, na favela Novo Horizonte, Rio de Janeiro, que se deveu ao represamento das águas devido a uma forte chuva, sob uma ponte, por milhares de garrafas PET, ocasionando grande inundação. Recentemente, conta Sirkis, uma equipe de manutenção demorou três dias para desobstruir a rede de esgotos da Rua Marquês de São Vicente (Gávea), Rio, entupida com uma simples garrafa de Coca-Cola pequena.
O certo é, colega engenheiro, que a cultura brasileira ainda não embarcou na coleta seletiva como hábito do dia-a-dia, por motivos que caberiam dentro de um outro artigo, e consequentemente, não estava apta ao modernismo do PET. Possivelmente, a engenharia não foi chamada para opinar, para fazer previsões. Tentando contornar esse fato insofismável, o deputado Gabeira tenta emplacar uma lei que impõe responsabilidades de recolhimento das embalagens usadas aos empresários e é lógico, a grita contra essa lei é grande, sob a alegação de que os produtos iriam encarecer e com isso, até ameaçar o plano econômico do governo. Mas, será que isso é argumento para se contrapor às tragédias, prejuízos materiais e perdas de vidas advindas de fortes chuvas que não têm por onde se escoarem? É culpada a engenharia?
Absolutamente não estou querendo imputar ao PET toda a culpa: os desmatamentos, os assentamentos desordenados e em áreas de risco, as sobrecargas sobre barrancos frágeis, as coletas de lixos deficientes e outros motivos, têm as suas parcelas de culpa. É dada à engenharia condições de poder opinr e de decidir?
Gil Portugal