Gil Portugal (abril/91)
As chuvas constantes do mês de março que passou causaram um enorme estrago nas duas maiores cidades do País; São Paulo e Rio de Janeiro, bem como, em outras por esse Brasil a dentro, além de destruir grandes trechos de estrada em geral.
As inundações, desabamentos e soterramentos resultaram em muitas vítimas e deram prejuízos incalculáveis a níveis de famílias e de recursos públicos que terão que ser desembolsados para consertos inadiáveis.
Os alagamentos de vias trouxeram enormes dissabores pelos tempos perdidos em engarrafamentos de trânsito e pelos acidentes com veículos.
Evitar ou pelo menos amenizar tudo isso sairia bem mais barato e sem dor, se nossas autoridades soubessem ou quisessem planejar e ainda, serem mais firmes com certas proibições.
Morro "descalçado" com barraco em cima é tragédia mais dia menos dia.
Lixo acumulado em encostas é tragédia mais dia menos dia.
Rios, canais e galerias assoreados (obstruídos) é inundação mais dia menos dia.
Nas chuvas de março, a situação de Volta Redonda, infelizmente para nós, não foi mais tranqüila; os números que indicam a precipitação pluviométrica foram excepcionais.
De acordo com os dados registrados na Estação Meteorológica da CSN-INEMET, Aero Clube, comparando as chuvas de janeiro, fevereiro e março do ano passado com as dos meses deste ano, tivemos em milímetros (*) totais de precipitação, somente em Volta Redonda:
1990-janeiro 218; fevereiro 49; março 141
1991-janeiro 255; fevereiro 78; março 375
É bem verdade que a Represa do Funil, em Itatiaia, controla, como pode, a vazão do Rio Paraíba do Sul que nos chega. Lembram-se da grande cheia de 1966 com o Rio Brandão por sobre a rua 41? Naquela época Funil não existia. Na ocasião, o efeito não teve grandes repercussões pela rapidez do evento.
A realidade é que o assoreamento de rios e canais (e até represas) diminui o volume geométrico de suas caixas, consequentemente o volume físico das águas que podem conter. Essa diminuição leva a que, até com menos águas de chuva esses rios e canais transbordem; imaginem com grandes quantidades de chuva!
O rio maior sempre controla o nível de seus afluentes. No nosso caso, como exemplo, o nível do Rio Paraíba é que vai ditar o nível do Rio Brandão e esse, por sua vez, vai ditar o nível do Córrego Cachoeirinha (Rua 18), e esses todos irão ditar os níveis de tudo que neles desemboca, seja córrego ou um simples tubo de águas pluviais.
A represa do Funil armazena as contribuições de água de toda a bacia antes dela. Quando o nível da represa atinge um determinado valor crítico, a quantidade de água liberada para a bacia depois dela é aumentada. Essa quantidade, somada às contribuições da bacia depois da represa, é que determina a vazão e o nível do Rio Paraíba em Barra Mansa, Volta Redonda e daí para baixo. A liberação das águas da represa é um trabalho altamente técnico que os empregados do Funil bem sabem fazê-lo; mas, importante é que, se mantenham informados, constantemente, pelos setores técnicos das cidades citadas a juzante (Defesa Civil, Estações de Captação etc.).
A análise do assunto mostra que há dois tipos de combate a se fazerem: às causas e aos efeitos.
O combate às causas é muito mais complicado e longo, porque nele se inserem a pobreza, a destruição criminosa da Natureza em vários aspectos, as tecnologias não apropriadas visando muitas vezes baratear projetos, populismo permissivo etc.
O combate aos efeitos é menos complicado, embora caro e consiste nas obras de manutenção, só que, elas não devem ser feitas apenas como corretivas, mas principalmente, como preventivas, sempre aproveitando-se dos períodos de reconhecida estiagem.
(*) Um milímetro de precipitação pluviométrica (chuva) corresponde a um litro d'água caindo em um metro quadrado do terreno.
Gil Portugal