Gil Portugal (fevereiro/96)
Há uns três anos atrás, estava na casa de minha filha, na Flórida (E.U.A.) e apreciava (maravilhado, porque não?) um seu trabalho que se repetia a cada mês: pagar contas. Na mesa da sala, uma pilha de contas a pagar, envelopes, selos, e um talão de cheques. O trabalho dela era preencher os devidos cheques, envelopá-los junto com as respectivas contas, selar os envelopes e colocá-los na sua caixa de correspondência, a mesma pela qual ela recebe suas cartas, no gramado em frente à casa. E, assim, sem muito esforço, com aquele procedimento, em pouco mais de meia hora, estavam liquidadas as preocupações de minha filha com as prestações da casa e do carro, com as contas da luz, do telefone, da água etc., obrigações que, por aqui, muitas vezes temos que enfrentar nas filas dos bancos. Aliás, hoje, entre nós, o desconto automático para as contas de água, luz e gás já um avanço.
Mas, voltemos ao ponto central do assunto.
A conta dágua de minha filha, naquela ocasião, chamou-me a atenção, porque vinha acompanhada de um comunicado da companhia fornecedora. Tal comunicado dava conta de que, por motivos imponderáveis, a obra prometida de uma estação que iria retirar da água o THMS, tinha atrasado um mês e se recomendava que não se tomasse água diretamente da torneira; uma fervura prévia era recomendável.
Àquela época o termo THMS me soou estranho. Trouxe para o Brasil aquele aviso da concessionária para uma consulta aos meus colegas e um deles disse significar "trihalometanos", que viria a ser uma substância que aparece justamente quando se trata a água para o consumo humano. Achei aquilo uma tremenda sofisticação, já que, por aqui, os mais felizardos conseguem beber água clorada e os mais felizardos ainda, uma água clorada e fluoretada.
Como todos sabemos, as principais doenças causadas por uma água de onde não se eliminaram os coliformes, são a desinteria e a febre tifóide. Há cerca de 90 anos, os franceses desenvolveram um método de purificação das águas para consumo à base de ozônio. De início, o método era caro mas, de 30 anos para cá, já existem, em mais de 50 países, cerca de duas mil usinas de ozonização.
Mas, o que é o ozônio e porque ele tem a propriedade de destruir bactérias? A molécula do oxigênio é composta de dois átomos. Quando o ar atmosférico é submetido a descargas elétricas nas tempestades, por exemplo, a ionização tende a formar o ozônio, que nada mais é que o oxigênio com três átomos. Acontece que este terceiro átomo vive a procura de "encostar" em outra substância, porque é como se sentisse um intruso naquele oxigênio. Quando ele se desprende dos seus dois companheiros, ele possui uma grande força de coesão e é muito reativo. Sua tendência é oxidar rapidamente o "novo parceiro". Se esse novo parceiro é uma bactéria, o carbono nela contido é rapidamente modificado e a bactéria simplesmente morre.
Não sabemos da existência de usinas de ozonização de águas em nosso país. Por enquanto, o cloro nos basta, apesar de seus inconvenientes, como o paladar da água, quando a quantidade a ser usada é grande, obrigada pelo grau de contaminação, até aos problemas estomacais, fora o trihalometano que nem sabemos direito de suas conseqüências.
Quanto menos estiverem destruídos nossos recursos hídricos de água doce, tanto menos teremos que nos apoiar em produtos químicos para termos uma água que possamos beber e que não nos adoeça.
Gil Portugal