Gil Portugal (abril/97)
Fiquei conhecendo o Estado brasileiro mais a oeste desse país, membro desta imensa "comunidade" de vegetação, a maior do mundo, a Amazônia, o Acre. Para começar, ao chegarmos, houve um grande choque de acomodação de nosso relógio biológico quando tivemos que jogar para trás, àquela época de horário de verão, os nossos relógios, em três horas.
Fizemos a viagem em duas etapas, a primeira até Brasília e daí voamos mais duas vezes e meia a distância Rio-Brasília, para alcançarmos a cidade de Rio Branco, capital do Acre.
No Acre habitam diversos grupos indígenas; existe a reserva Chico Mendes na localidade de Xapuri que é rigorosamente vigiada por ONGs (Organizações Não Governamentais) de toda natureza e ainda pela comunidade internacional que defende a tese de que o Estado é intocável, vista a Floresta Amazônica onde se embute. Acontece que, como sentimos, tanto no povo, quanto nas autoridades locais e até as de Brasília, que o discurso meramente preservacionista deveria ser mudado, para um discurso conservacionista, fazendo valer a teoria do desenvolvimento sustentável.
Pelo Estado do Acre, o Brasil, com o uso da rodovia BR-364, tem a chance de concretizar a ligação, através do território peruano, com o Oceano Pacífico e sabem o que isso significa? Simplesmente o escoamento mais barato da exportação de tudo que se produz no Centro-Oeste, principalmente a soja, que hoje tem que ser embarcada pelo sul do país e daí, fazer uma verdadeira ginástica para atingir o Pacífico e chegar aos portos das nações importadoras. Como nos foi informado, haveria uma redução de R$70,00 por tonelada de soja se exportássemos via Acre, Peru e Pacífico. Aliás, essa questão da soja merece tecnicamente ser melhor explorada, haja vista que a grande quantidade de água incorporada naturalmente aos grãos faz crescer o peso do produto; o ideal, nos parece, seria industrializá-la para retirar essa água e transportar somente a essência.
Mas, voltando aos assunto da Estrada BR-364, Fujimori, do lado peruano, já avança sua estrada em direção ao Acre, enquanto que, do lado de cá, construção da BR-364 se arrasta por conta de pressões de grupos ecológicos, talvez (para não garantir que é com certeza) até apoiados por grupos internacionais (de boa fé?) que não querem aceitar qualquer possibilidade de expansão e progresso por conta da estrada. Existem relatórios produzidos no exterior afirmando que o Acre é intocável. Em contrapartida, muitos são aqueles que dizem que a criação do Estado do Acre (em 1962) foi um grande erro político, haja vista que até hoje aquele estado vive às expensas do dinheiro de Brasília. Também pudera, são pressões de toda natureza, que impedem o Estado de caminhar com suas próprias pernas, de explodir a pujança de suas riquezas e dar a seu povo uma demonstração de que é capaz de fazer e muito, só que não deixam.
A estrada em questão, por margear longitudinalmente, pelo norte, todo o estado do Acre, correndo de leste a oeste, tem (teria) a conveniência de poder escoar para essa estrada toda produção do Estado no sentido de sul para o norte, haja vista que o seu território é mais largo que estreito, ou seja, sua dimensão leste-oeste é maior que sua dimensão norte-sul.
Voltando a BR-364, pode-se afirmar que é enorme a pressão internacional para inviabilizar o asfaltamento da estrada, apoiada na pecha disfarçada, ao nosso ver, pela lenda de Chico Mendes; com isso, a mídia internacional vem conseguindo incutir nas grandes hostes do capital internacional a idéia da intocabilidade do Estado do Acre. Em outras palavras, querem sacrificar um povo inteiro ao atraso eterno. Para esses grupos de pressão, dane-se a soberania nacional de uma nação chamada Brasil!
Será válido sacrificar-se o desenvolvimento de um Estado brasileiro e desfavorecer os produtores nacionais, pelo barateamento de seus produtos lá fora, por conta de evitar o corredor para o Pacífico pela BR-364? Talvez até sim, se não houver mecanismos para realizar tudo que se deseja de forma ordenada, contemplando as duas faces da questão, a ambiental e a econômica, sacrificando ao mínimo a floresta e seus pertences e compensando-se esse sacrifício com a melhoria da qualidade de vida do povo acreano e até, através de realizações voltadas à recuperação ambiental e à proteção dos recursos naturais. Ao final, a natureza perderá até um pouquinho e o brasileiro ganhará muito.
Foi ótimo para nós chegarmos até o Acre para conhecer de perto uma realidade que desconhecíamos aqui no Sudeste, passando por cima desse nosso afã terrível e tumultuado do corre-corre do dia a dia.
Esperamos que as soluções de bom senso venham a equilibrar as coisas.
Gil Portugal