CIDADE E CAMPO
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Gil Portugal (agosto/98)

Especialistas em demografia calculam que o homem de hoje foi desenvolvido após 1.500 gerações e que passou a vida nos conglomerados urbanos há apenas 200 gerações; antes disso, viviam em grupos dispersos que absolutamente não poderiam ser classificados como conglomerados. Pode-se, então, considerar que é bem "recente" a existência do chamado homem urbano, isto é, o que vive em cidades.

Passaram-se, assim, 1.300 gerações nas quais o homem, de forma quase isolada, se valia dos recursos naturais para satisfazer suas necessidades. Praticamente não tinha o hábito de estocar alimentos por longos períodos, principalmente por não ter como conservá-los; em outras palavras, usava a natureza (fauna e flora) somente quando a necessidade o obrigava, para sobreviver.

Da mesma forma, a geração de seus resíduos, visto não viver em conglomerados, se dava em pontos bem diferenciados e, com isso, a natureza cuidava, sem grandes esforços, de eliminar esses resíduos pela autodepuração, através de seus agentes físicos, químicos e biológicos.

Com o advento dos aglomerados, que passaram a constituir as cidades, o homem começou a ocupar o solo em espaços territoriais próximos uns dos outros, modificando as características originais desses solos, através de desmatamentos, aterros, desaterros e impermeabilizações, em locais onde normalmente se infiltravam as águas de chuva e criando uma topografia antinatural pelas habitações, propiciando variações na direção dos ventos e mudanças de temperatura, vistas as novas formas de distribuição dos calores provenientes do Sol. Enfim, as cidades passaram a ser responsáveis por grandes transformações climáticas que extrapolam os seus limites.

Além disso, os homens (em aglomerados) concentrando-se em menor espaço territorial, faz acontecer a geração e consequentemente a disposição dos resíduos sólidos e líquidos, que acontece diariamente, de forma menos espalhada, e forçando, com isso, a natureza a se autodepurar em espaços menores.

Não bastasse, os conglomerados urbanos passaram a demandar a entrada cada vez maior, em seus territórios, de energia e suprimentos de toda a espécie e a gerarem resíduos de forma cada vez mais crescente e de espécies as mais variadas.

Pelo fato de que as cidades não geram elas mesmas suas energias e alimentos, pode-se dizer que são como parasitas ambientais, pois promovem a poluição do ar, do solo e da água, não promovendo, por meios naturais, a reciclagem de recursos naturais renováveis de que se utilizam.

A relação ambiental das cidades com o meio rural não existe, visto que, na troca com esse meio, as cidades fornecem bens industrializados, serviços, dinheiro e cultura, e recebem do meio rural recursos naturais. As cidades são, em outras palavras, como animais imóveis que consomem oxigênio, combustíveis e alimentos e liberam despejos poluentes de toda a espécie. Tais animais não sobreviveriam alguns dias sem a entrada dos recursos naturais de que dependem. Acresce-se o argumento de que os próprios animais no meio urbano, como os insetos, as aves e os pequenos mamíferos, se alimentariam uns dos outros e conseguiriam sobreviver, mas o homem, por sua vez, que se alimenta de plantas e animais que não existem naturalmente nas cidades, sucumbiria em curto espaço de tempo.

Com tudo isso, aos poucos, considerando as mudanças climáticas citadas, a conspurcação dos solos, das águas e do ar, o ambiente citadino vai influenciando paulatinamente no ambiente rural e o parasita (cidade) poderá vir a aniquilar o seu hospedeiro (campo), se atitudes sensatas, visando à preservação, não forem adotadas no dia-a-dia.

 

Gil Portugal