Gil Portugal (junho/98)
Acho que não precisa ser um especialista para reparar que, no inverno, a saúde da gente, em termos de problemas respiratórios, piora e que tal fato se associa à poluição atmosférica.
Vamos tentar mostrar para os leitores deste jornal, na linguagem mais simples (desculpe-nos os especialistas), alguns fenômenos e aspectos que muito influenciam a nossa saúde, e também, a respeito da sujeira à base de poeiras que enporcalham as roupas no varal, os carros, as piscinas, os parapeitos, os pisos etc., tudo a partir da tão badalada poluição atmosférica.
Mas, desta vez, vamos relacionar a poluição atmosférica com o clima; não vamos falar das poeiras em si; vamos dar ênfase ao inverno que está para chegar, relacionando-o à poluição atmosférica devida às poeiras.
Para começarmos a nos entender, é necessário fazer algumas correlações entre clima frio ou quente, úmido ou seco, com chuva ou não, e, finalmente, as poeiras em suspensão na atmosfera, para que cheguemos às conclusões, ao final desta explanação. Comecemos com alguns conceitos.
O primeiro deles é: por que chove?
Existe água dissolvida no ar. É por isso que se fala umidade relativa do ar. Se o ar é seco (umidade relativa baixa), é porque tem pouca água dissolvida; se é úmido (umidade relativa alta), é porque tem muita água dissolvida nele.
Acontece que, quanto mais quente for o ar, maior sua capacidade de conter água dissolvida, logo, em geral, uma massa de ar quente é mais úmida que uma massa de ar frio.
Quando falamos acima "em geral" é porque a teoria não vale para regiões desérticas, onde sendo o clima frio ou quente, terá seu ar com umidade relativa baixa, simplesmente pela ausência de vegetações, mares, rios, charcos e lagos, fundamentais para fornecerem, por evaporação, constantemente, a água que irá umidificar o ar.
Mas e aquela névoa que aparece nos climas frios? Não significaria uma alta umidade de ar? A resposta é não. Aquela névoa é água sim, mas água que não consegue se dissolver no ar, exatamente por ele estar frio. O ar frio tem pouca capacidade de dissolver a água.
Quando uma massa de ar frio (com pouca água) encontra uma massa de ar quente (com muita água), vai resfriar a massa de ar quente e fazer com que a água de massa quente se condense e venha a se precipitar sob forma de chuva.
Por aí, dá para deduzir por que nos climas frios chove menos?
Passemos, agora, a explicar dois fenômenos bastante interligados e que muito têm a ver com o agravamento ou o abrandamento da poluição atmosférica. Os fenômenos são chamados dispersão e inversão térmica.
Quase todos sabem que a pressão atmosférica diminui com a altitude. Para quem não sabe, vamos tentar explicar: a pressão atmosférica, aqui na superfície, nada mais é que o peso da camada de ar que está sobre as nossas cabeças (sobre a superfície onde se distribui esse peso). Se subirmos um pouco na altitude, o peso da camada de ar é menor e, consequentemente, a pressão atmosférica é menor. Dessa forma, podemos afirmar que a pressão atmosférica, ao nível do chão, é maior que a pressão atmosférica a 100 metros de altitude, porque a 100 metros de altitude existe "menos ar por cima fazendo peso".
Continuando, todos sabem que o caminho de um gás ou de um líquido é sempre no sentido da mais alta pressão para a mais baixa pressão. Não é assim que uma bomba d'água funciona? Dessa forma, se não houver outros motivos, o ar ao nível do chão tende a subir porque estará passando de um local de mais alta pressão para outro de mais baixa pressão.
É evidente então que, se o ar ao nível do chão tende a subir, irá carregar, consigo, para o alto, todas as impurezas que forem leves o suficiente para isso. Poeiras, por exemplo.
Todos sabem que a instalação de um ar-condicionado na parte mais elevada de uma sala dará maior eficiência na refrigeração. Isso porque, o ar mais quente, por estar mais expandido pelo calor, tem sua densidade menor que o ar mais frio; em outras palavras, o ar mais quente é mais leve que o ar mais frio e, esse ar mais frio, tende a descer e o ar mais quente a subir. No caso geral, a velocidade de subida do ar será tanto maior quanto mais quente ele for. Isso explica porque nos climas quentes as poeiras sobem mais rápido, se dispersando (espalhando) mais.
A conclusão lógica que se tira é que nos climas mais frios as poeiras sobem mais devagar. Isto é, ficam perto de nós por mais tempo. Costuma-se dizer que no inverno a poluição atmosférica piora.
É também no inverno que, vez por outra, acontece outro fenômeno que só piora as coisas em termos de poluição atmosférica e que é a inversão térmica. Que diabo complicado é isso?
Voltemos ao ar subindo. Na ascensão do ar, por ele estar sujeito a pressões cada vez menores em sua trajetória para cima, ele vai se expandindo (aumentando de volume) e, com isso, se esfriando (mesmo princípio de fazer frio na geladeira pela descompressão de um gás). Em condições normais, a temperatura do ar cai 1 grau Celsius a cada 100 metros de altitude.
Se por um motivo qualquer (topografia favorável, por exemplo), uma massa de ar quente venha a se posicionar sobre o ar frio, o peso dessa massa tenderá a "tampar" a massa fria (que já está pouco densa pelo aumento de volume) e impedir que as impurezas que essa massa fria carregava para cima continuem a subir, acumulando-as sob a "tampa" e fazendo-as até retornar, pelo peso, para a superfície. O fenômeno faz, então, com que a concentração de poeiras aumente junto a nós no solo.
Já quanto à chuva, ela se comporta como um fator atenuante, seja no verão, no inverno, com inversão térmica ou não, mas infelizmente, para esse caso, é rara no inverno, como já vimos. A chuva tende a molhar as partículas (poeiras), tornando-as mais pesadas e fazendo com que caiam, diminuindo, com isso, a concentração dessas impurezas no ar junto ao solo. É importante tal fato no que se refere às partículas muito finas que não irão sujar aqui embaixo quando caem, mas que, por serem respiráveis, a sua ausência será benéfica para a saúde de nossos pulmões.
Como conclusão, o inverno sempre favorece condições de agravamento da qualidade do ar.
Gil Portugal