JOSÉ BONIFÁCIO
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Gil Portugal (1993)

José Bonifácio, o Patriarca da Independência, era um homem grande visão, dom que faz os grandes políticos, raros hoje em dia, quando grandes decisões são adiadas em favor de fisiologismos e atrasam irremediavelmente o nosso futuro como grande Nação.

Vai, aqui, na íntegra, o artigo escrito por esse grande personagem de nossa história, há dois séculos e que hoje vemos que é atualíssimo.

VISÃO DA GRANDE PÁTRIA

  1. O vastíssimo Brasil, situado no clima o mais ameno e temperado do universo, dotado da maior fertilidade natural, rico de numerosas producções, próprias suas, e capaz de mil e outras que facilmente se podem nelle climatizar, sem os gelos da Europa, e sem os ardores da África e da Índia, pode e deve ser civilizado e cultivado sem as fadigas demasiadas de um vida inquieta e trabalhada, e sem os esforços alambicados das artes e comércio exclusivos da velha Europa.
  2. Dae-lhe que goze da liberdade civil, que já tem adquirido; dae-lhe maior instrução e moralidade, desvelae-vos em aperfeiçoar a sua agricultura, em desempecer e fomentar a sua indústria artística, em argumentar e melhorar suas estradas e a navegação de seus rios; empenhae-vos em acrescentar a sua povoação livre...
  3. A natureza fez tudo a nosso favor, nós, porém, pouco ou quasi nada temos feito a favor da natureza. Nossas terras estão ermas e as poucas que temos roteado são mal cultivadas... nossas numerosas minas, por falta de trabalhadores activos e instruídos, estão desconhecidas ou mal aproveitadas; nossas preciosas mattas vão desapparecendo, víctimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo; nossos montes e encostas vão-se escalvando diáriamente, e, com o andar do tempo, faltarão as chuvas fecundantes que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso bello Brasil, em menos de dois séculos, ficará reduzido aos páramos e desertos da Lybia.
  4. Virá, então, esse dia (dia terrível e fatal), em que a ultrajada natureza se ache vingada de tantos erros e crimes cometidos.

Eis, pois... basta de dormir, é tempo de acordar do somno amortecido em que há séculos jazemos...

 

José Bonifácio, o Patriarcha

(1763 – 1838)