O RESÍDUO
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Gil Portugal (1993)

A Natureza está em constante mutação.

A geração de resíduos é contínua, se considerarmos resíduos tudo aquilo que adveio do que foi descartado, após servir a um objetivo primeiro.

Um animal que se alimenta é uma fonte de resíduos, porque o alimento ingerido, passando por transformações em seu organismo, retira deste alimento os insumos imprescindíveis à vida e, a fração excedente ou desinteressante ao objetivo, é normalmente descartada, constituindo-se no resíduo.

Uma reserva mineral é explorada para que dela se lhe tire o minério, descartando-se aquilo que não interessa ao objetivo primeiro, que é a obtenção do minério; a parte descartada é o resíduo.

As folhas velhas de uma árvore caem para dar lugar a uma nova folhagem, que revitalizará a árvore para uma nova chance de floração (objetivo primeiro da folhação); nesse caso, a árvore descartou-se, então, de um resíduo que não lhe serviu ao seu objetivo primeiro, enflorar-se.

Na tentativa de alongar-se esse conceito, pode-se dizer que as próprias forças da Natureza, agindo sobre a matéria, de qualquer espécie, fazem mutações cujo resultado pode ser considerado resíduo; o intemperismo agindo sobre uma rocha leva-a a transformar-se em material argiloso ou arenoso, que pode ser considerado um resíduo oriundo de um agregado mineral.

Tecnicamente falando, os resíduos são líquidos ou sólidos descartados, quer em processos industriais, quer aqueles oriundos do quotidiano do homem. Abusando desse conceito, vamos alongá-lo ao campo da poluição atmosférica referida às emanações gasosas, às variações de pressões sonoras por ação do homem, os descartes involuntários para o meio ambiente de toda sorte de materiais nocivos etc.

A Natureza, porém, sábia, tem suas regras e estabeleceu um ecossistema para compensar todos esses acontecimentos e "propôs" que os resíduos são desinteressantes para uns, mas interessantes para outros, até por questão de sobrevivência desses outros.

Aí, então, entra o homem no grande Sistema; único ser que, pensante, poderia vir a desbalancear aquilo que foi "proposto" pela Natureza. A Natureza, talvez sabedora de que esse intruso apareceria para burlar-lhe as regras, superdimensionou-se para reagir a esses abusos e vem reagindo. Mas, até quando? Todo superdimensionamento tem seu limite, também.

O engenheiro no contexto: - nossas profissões caracterizam-se basicamente na modificação da natureza das coisas, visando melhorar as condições de conforto do homem, direta ou indiretamente e com isso, causando a geração de resíduos e mais resíduos. Estamos realmente cônscios de que nossas realizações devam resguardar o equilíbrio da Natureza? Estamos preparados, se cônscios, para providenciar, a priori, esse resguardo? Indubitável é que, uma simples ação da engenharia levará a modificar e ou modificará parâmetros naturais e para que isso seja evitado ou atenuado, a cada ação deverá corresponder uma contra-ação eficaz.

O Povo no contexto: - acredita o povo na intenção do técnico de que sua obra de engenharia realmente foi concebida, preocupada com a proteção ambiental? Eu diria que em princípio sim, mas existem vetores de alerta que podem abalar ou não essa credibilidade. Vamos tentar identificá-los:

próprio engenheiro, não cônscio de que deva realizar esforços nesse mister, preocupado que está em gastar pouco e produzir o máximo, de moto próprio ou forçado a tal;
os oportunistas populistas, em geral leigos, que baseados em falsas ou fracas teses científicas, inculcam na cabeça daqueles menos preparados verdadeiros tormentos ecológicos, levando-os ou incentivando-os a uma reação;
os conservacionistas sinceros e radicais que desejam que a civilização dê uma brusca parada; que o progresso regrida em prol da Natureza;
a imprensa sensacionalista que busca, nas duas fontes acima, divulgar a inverdade (ou a verdade) mais chocante, encobrindo o outro lado da estória, se houver, porque, esse, não vende;
a imprensa séria que procura em todas as fontes, analisa, pondera e reage veementemente sobre os pontos que julga verdadeiros, assumindo a defesa do lado ecológico com argumentos válidos;
o político insincero e leigo, que sente a necessidade de se manter afirmado e se enquadra na classe dos oportunistas populistas;
o político oportunista e não leigo, que sabe onde a engenharia falhou e irá, através desses pontos falhos, fechando os olhos aos não falhos, não procurar seu conserto mas, ganhar dividendos junto ao seu eleitorado;
o político não oportunista e não leigo – coisa rara – que agirá com toda a sua força para a correção daquilo que tem consciência que está errado.

Para todos os efeitos, os críticos maliciosos ou não, verdadeiros ou não, têm o mérito de alertar e suscitar uma reação que não deixa de ser benéfica, porque sacode o comportamento passivo e põe em brios aqueles envolvidos com o problema e que estão realmente procurando resolvê-lo.

 

Gil Portugal