Gil Portugal (março/95)
São tantas as novidades que ocorrem a cada instante neste mundo e que ficamos informados com as comunicações, cada vez mais velozes que, de vez em quando, um determinado assunto sai de pauta em nossa memória, que até pensamos estar ele ultrapassado.
Uma coisa é certa, se o assunto é um problema e se não temos mais ouvido falar dele, com certeza ele não foi resolvido, pois se estivesse solucionado, ouvir-se-ia a respeito e as soluções estariam sendo alardeadas. Um desses assuntos é o lixo gerado pela raça humana, no seu dia-a-dia.
O homem é um constante gerador de lixos de todas as espécies, quer em casa, quer no escritório, quer na indústria, no comércio ou na oficina em que trabalha.
Refugo, resíduo, lixo, rejeito, restos e outras, são terminologias que confundem um pouco a cabeça, mas isso não importa, porque tudo significa incômodo, mal estar, vontade de se livrar o mais rápido possível etc.
Já falamos uma vez do lixo do pobre e do lixo do rico que, evidentemente, têm características diferentes, em questão de tipo e quantidades. Exemplos: os países mais ricos consomem mais produtos embalados que os países mais pobres; nesse caso, os lixos variam em tipo e quantidade, causando incômodos diferenciados. Outro exemplo, a produção industrial dos países ricos é maior e mais diversificada, implicando gerações distintas em espécie e volume gerado.
Não resta dúvida que os E.U.A. são o país mais gerador de lixo. Vão aqui algumas idéias dessa geração, extraídas do "National Geograph Magazine", do "World Watch Institute", bem como, de observações minhas próprias quando visitei em Cincinatti, Ohio, um museu que possui um setor dedicado ao assunto.
Só em matéria de pneus usados (quase novos), jogam-se fora 400.000 por dia, isso corresponde a 150 milhões por ano. As embalagens de alumínio descartáveis dariam para construir 6 mil aviões DC-10 por ano. O lixo doméstico da cidade de Nova York, gerado em 15 anos, dá para construir uma pirâmide de 150 metros de altura, pesando 50 milhões de toneladas; a pirâmide de Queops, no Egito, tem 140 metros de altura e pesa 6 milhões de toneladas. O americano comum produz uma média de 2 quilos de lixo doméstico por dia. Se os sacos de lixo de uma família média americana, de quatro pessoas, fossem empilhados, em uma semana atingiriam uma altura de três metros.
Evidente e felizmente, há esforços no mundo para tentar colocar um freio nesta loucura, através da busca de alternativas, visando destinar os lixos gerados para os processos denominados de reciclagem, isto é, conseguir para eles uma alternativa de outro uso e com isso, diminuir seus acúmulos nos aterros.
Um bom exemplo de reciclagem, que vem ganhando terreno, diz respeito aos plásticos em suas diversas formas, obtendo-se, dessa reciclagem, uma série de produtos, entre os quais, embalagens de segunda linha, recipientes diversos, moirões, sinalizadores de estradas etc.
Da mesma forma, metais, papéis e vidros já tem suas reciclagens bem definidas e finalmente, o lixo orgânico que, se bem trabalhado, poderá voltar às origens, isto é, ao solo, em forma de adubo.
Enquanto isso, o lixo industrial, além de constituir-se em dor de cabeça para quem o gera e para aqueles que sofrem com eles nas proximidades de suas áreas de disposição, é um fator econômico que vem cada vez mais sendo levado em consideração pois, de alguma forma, significa dinheiro. Pior são os lixos industriais, cuja recuperação não compensa, nem de longe, o custo para fazê-la. Os países industrializados, volta e meia, usam do expediente de exportar esses lixos para as regiões mais pobres que o aceitam quando vêem perspectivas de alguma reciclagem lucrativa; como, em geral, esses lixos são pobres no seu conteúdo mais interessante, sobrará o lixo do lixo, que terá que ser "engolido" por quem comprou (ou ganhou) o lixo original.
A teoria da tecnologia limpa na indústria é também bastante falada e ela significa a adoção de processos menos geradores de resíduos, quer sólidos, líquidos ou gasosos. Neste caso, a engenharia, a pesquisa aplicada e a economia, têm que entrar firme nos estudos que levem à busca dessa tecnologia, em cada espécie de processo.
Está aí um lembrete de um assunto que temos a obrigação de manter vivo na memória de cada um. Se não houver jeito de amenizar a geração de lixos e formas de contornar os excessos em suas gerações, o mundo acaba afundado neles.
Gil Portugal