Gil Portugal
O artigo que ora apresento deveria fazer parte do recentemente publicado neste jornal, sob o título "Os Malefícios dos Lixos"; todavia, aquele artigo ficaria por demais extenso e o espaço não daria para tratar o caso específico que aqui abordarei.
Se PET fosse uma palavra da língua inglesa, significaria somente "um bichinho de estimação".
Como, apesar do modismo de usarmos termos alienígenas a todo instante, essa palavra só aparece em algumas lojas destinadas à venda de apetrechos e alimentos para os nossos bichinhos caseiros. Aqui, em Volta Redonda, PET também significa lazer, quando nos referimos ao Parque Esportivo Tabajaras do Clube dos Funcionários da CSN.
Acontece que, quando PET significa Polietileno, um derivado do Petróleo que visou a fabricação de diversos tipos de embalagens descartáveis, a coisa muda de figura, passa a ser muito séria.
Se bem me lembro, há uns dois anos, estava no Rio e saí fagueiro com alguns cascos (de vidro) de Coca-Cola, para comprar alguns litros e qual não foi a minha surpresa ao saber que o Supermercado aposentara o vidro e somente vendia o produto em embalagens de PET.
Indignado, não por ter que jogar fora as dezenas de cascos de vidro que tinha em casa, o máximo que pude fazer foi escrever uma carta para "O Globo", expondo que uma troca dessa natureza era tremendamente prejudicial para o Meio Ambiente e protestando a respeito.
A realidade é que, embarcamos na era do PET, do "conforto" do PET, sem estarmos preparados e sem que aqueles que permitiram a modernidade pudessem ou quisessem pensar um pouco adiante e previssem a calamidade que hoje aí está, a troco de baratear o produto para o produtor (e consumidor) e ainda livrar o consumidor da "chatice" do troca-troca dos cascos de vidro.
Vocês, leitores do "Diário do Vale", que tiveram a oportunidade e a curiosidade de ler a respeito da última enchente no Rio de Janeiro, puderam observar, pelas fotos, o que boiava naquelas águas. Eram sacos de lixo e principalmente, muito PET, isto é, uma multidão de garrafas de refrigerantes, de detergentes, de águas minerais, de óleos etc. Pois é, sendo as embalagens de PET muito leves, elas nunca afundam nas águas e vão sendo carregadas até onde essas águas deveriam escoar livremente. O que acontece, então? Bloqueio dos escoamento nos ralos das ruas, nas valas, nos córregos e o que é pior, dentro das tubulações, podendo, aí, causar entupimentos difíceis de serem localizados e removidos.
Conta Alfredo Sirkis, em recente artigo em "O Globo", uma tragédia que resultou em dez mortes, em Jacarepaguá, na Favela Novo Horizonte, que se deveu ao represamento das águas devidas à forte chuva, sob uma ponte, por milhares de garrafas de PET, ocasionando grande inundação. Recentemente, conta Sirkis, uma equipe de manutenção demorou três dias para desobstruir a rede esgotos da Rua Marquês de São Vicente (Gávea), entupida com uma simples garrafa de Coca-Cola pequena.
O certo é, leitor, que a cultura brasileira ainda não embarcou na coleta seletiva como hábito do dia-a-dia, por motivos que caberiam dentro de um outro artigo, e consequentemente não estava apta ao modernismo do PET. Tentando contornar esse fato insofismável, o Deputado Gabeira tenta emplacar uma Lei que impõe responsabilidades de recolhimento das embalagens aos empresários e é lógico, a grita contra essa Lei é grande, sob a alegação de que os produtos iriam encarecer e com isso, até ameaçar o Plano Econômico do Governo. Mas será que isso é argumento para se contrapor às tragédias, prejuízos materiais e perdas de vidas, advindas de fortes chuvas que não têm por onde se escoarem?
Absolutamente não estou querendo imputar ao PET toda a culpa: os desmatamentos, os assentamentos desordenados e em áreas de risco, as sobrecargas sobre barrancos frágeis, as coletas de lixos deficientes e outros motivos, têm as suas parcelas de culpa.
Gil Portugal