AGENDA 21
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Gil Portugal
(1998)

            Como todos bem se lembram, em 1992, reuniu-se no Rio de Janeiro a maioria dos chefes de Estado do Planeta, dúzias de Organizações Não Governamentais ambientalistas, centenas de cientistas e técnicos envolvidos com a causa ambiental, debatendo, todos, na chamada ECO-92.

            Sem dúvida, dos temas abordados, a Agenda 21 (o nome faz alusão ao próximo século) foi, se não o mais importante, fundamental. Nele se tratava do desenvolvimento que se pretende dar ao mundo, daqui para frente, tornando-o sustentável, isto é, preocupando-se com o resguardo das condições ambientais para que as novas gerações possam sobreviver.

            Cinco anos após o evento, na abertura da Assembléia das Nações Unidas, compareceram, em massa, os chefes de Estado de então, para discutirem a quantas andavam os compromissos assumidos na Agenda 21. O Presidente Fernando Henrique abriu as discussões.

            O sub-tema principal foi a mudança de clima do Planeta.

            É sabido que são os gases estufa, enxergados como fatores antrópicos (devidos ao homem), importantes modificadores do clima do planeta. Em dezembro deste ano, um encontro em Kioto deve exigir compromissos das nações em abaixar as taxas de emissão desses gases estufa. A proposta européia fala em algo em torno de 15%. É a era da energia renovável. Será que virá?

            Mas, esse tal de Efeito Estufa, o que é? Como aparece? Quem é o culpado? Ele é tão vilão quanto andam dizendo? Acho que vale dar aos leitores do “Fator” uma noção disso tudo. Perdoem-me aqueles que já conhecem o assunto suficientemente. Vamos lá, então, do princípio.

Todos os dias, invariavelmente, a superfície da Terra se aquece e se resfria; esse fenômeno físico é cíclico, portanto.

A principal fonte de aquecimento da Terra é o Sol, através da gama de radiações que dele provem. A superfície terrestre absorve uma parte dessas radiações, reflete outra e irradia energia, em forma de radiação infravermelha. É através dessa irradiação que a Terra “bota para fora” calor e se resfria, para, no dia seguinte, começar tudo de novo.

Se, por acaso, esse calor “sainte” fica represado, no dia seguinte o calor “entrante” tende a se somar com o calor que deveria ter saído na véspera e como conseqüência, o ambiente terrestre ganha, em sua temperatura, alguns graus centígrados a mais do que seria normal. Alguns chamam esse fato de aquecimento global, que é até natural haver, caso contrário a Terra seria uma completa geleira; por isso que é importante que algum calor “sainte” fique retido. Mas, é claro, tudo tem o seu limite; se o calor “sainte” é retido sempre de forma exagerada, o somatório dos calores “entrantes” a cada dia, com aqueles que ficaram aprisionados da vépera, pode causar, de forma global, um aquecimento cumulativo que tenderá a se expandir por todos os rincões do Planeta, acarretando malefícios por esse superaquecimento. Costumam alguns autores usar a espressão aquecimento global somente quando há esse fato extremo.

Mas, a rigor, e felizmente para nós, existem fatores atenuantes contra esse somatório de calores; são compensações naturais e não naturais que, se não houvesse, estaríamos todos nós “torrados” em pouco tempo e “afogados” pelas águas provenientes das geleiras derretidas.

É bom fazer um parêntese para reafirmar que estamos falando de calor radiante (ou irradiante) que provém daquela porção de radiação que foi absorvida por sólidos, gases e líquidos que receberam a radiação solar; todavia, é bom que se leve em consideração ainda o fator reflexão que acontece quando a radiação solar, ao chegar, encontra condições de retornar em grande parte, atingindo ou não o solo, sem ter muito tempo de ser absorvida. Como exemplo, se a radiação solar encontra uma vegetação, ela terá mais condições de ser absorvida do que se encontrar uma superfície de concreto. Chama-se albedo à porcentagem de radiação que volta por reflexão.

O motivo de represamento do calor na atmosfera é que certos gases nela presentes são grandes absorvedores das radiações infravermelhas, exatamente aquelas pelas quais acontece a saída do calor. Tais gases existem naturalmente, mas sua proporção na mistura que compõe nossa atmosfera vem aumentando por ação do homem. Basicamente, esses gases são: o CO2 (dióxido de carbono), o NO2 (dióxido de nitrogênio), os CFC’s (clorofluorcarbonos) e o CH4 (metano). Tais gases são chamados gases-estufa.

As origens principais desses gases estufa, são: O dióxido de carbono (CO2) proveniente da queima de combustíveis fósseis e da biomassa. O metano (CH4) que oriundo de arrozais, da flatulência do gado bovino, de aterros de lixos urbanos e da queima de biomassa. Os CFC’s (clorofluorcarbonos) que atuam como gases estufa quando esses produtos escapam para a atmosfera. O dióxido de nitrogênio (NO2), que provem da queima de combustíveis fósseis (indiretamente) e de biomassa (indiretamente) e ainda da fertilização de solos com adubos nitrogenados.

Na relação de gases-estufa podem-se acrescentar o ozônio, o monóxido de carbono, outros óxidos de nitrogênio e o vapor d’água; todos com efeitos menos acentuados na absorção das radiações infravermelhas.

Falamos acima de fatores atenuantes naturais e antrópicos que impedem que o somatório dos calores represados atinjam valores sempre crescentes. O principal fator natural são, sem dúvida, os aerossóis que estão presentes na atmosfera, a maior parte deles compostos de cloreto de sódio devido ao “spray” das águas dos mares, carregados esses “sprays” pelos ventos. É interessante saber que o somatório das áreas desses “sprays” é várias vezes superior à superfície da Terra e cada um se constitui num “espelho” que reflete radiações, impedindo que elas cheguem à superfície da Terra.. É estimado que somente cerca de 10% dos “sprays” totais é de origem antropogênica. As nuvens são, também, fortes agentes reflectantes. Já, o principal fator antrópico atenuante são os particulados (poeiras) que existem em todas as gamas de dimensões circulando na atmosfera e que também são “espelhos”, não se podendo deixar de levar em consideração aí,, todavia, os particulados não antrópicos, devidos à erupções vulcânicas. Tanto para o caso dos aerossóis, quanto para o dos particulados, o tempo de permanência deles na atmosfera é inversamente proporcional aos seus tamanhos.

Como não temos pretensão, nem de longe, de esgotar este assunto, vamos complementar esta parte do artigo com algumas observações relacionadas ao aquecimento global; escolhemos dois aspectos: a influência na produção de alimentos e aquele relativo aos efeitos sobre a humanidade causados pela elevação do nível oceânico.

      Influência na produção de alimentos - a influência do aquecimento global na produção de alimentos poderá ou não ser benéfica, dependendo da localização dos campos agriculturáveis e da intensidade do aquecimento. Nada é definitivo, pois os cientistas ainda estudam como as mudanças de temperatura e de padrões de precipitação pluviométrica podem afetar a produtividade agrícola e quais os comportamentos no crescimento dos vegetais, quando do aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera.

Através de modelos matemáticos complexos são simuladas algumas mudanças no clima, levando a concluir que o aquecimento se concentrará mais nas latitudes altas e que, os solos apresentarão a tendência de ficarem mais secos no verão, nas regiões mais interioranas e o ciclo hidrológico, de forma global, ficará mais intensificado (mais chuvas e mais evaporação).

O fato de que aumento da concentração do CO2 na atmosfera, aumentando o aprisionamento de calor, aumentaria a evaporação das águas em geral apreciavelmente e também que a atmosfera não tem competência de reter grandes quantidades de vapor d’água, redundaria em que os índices pluviométricos (precipitação) aumentariam, não obrigatoriamente de forma uniforme, em todas as regiões.

Em resumo, a ciência, hoje, ainda está longe de concluir, com certeza, as conseqüências do aumento do efeito estufa, haja vista as varáveis entrelaçadas serem muitas; como conclusão, o certo é que, para certos tipos de cultivos e em certas regiões, o efeito estufa é benéfico ou maléfico para casos diferentes. A grande certeza é que o efeito estufa antropogênico colabora com modificações conflitantes àquelas que a Natureza inicialmente havia proposto.

Influência pela elevação do nível oceânico- aparentemente, uma elevação permanente do nível dos mares somente obrigaria às populações costeiras a recuarem ao avanço das águas, mas a coisa é bem mais complicada; para começar, a proteção dos litorais implicaria em altíssimos custos em obras de engenharia, como, bombeamento de areias, construção de barragens, diques e dunas de areias, conforme cada caso, a relocação de portos, etc. Dependendo do nível de subida das águas, países inteiros podem desaparecer, como, por exemplo, a República das Maldivas, composta de quase 1.200 pequenas ilhas com elevações de pouco mais do que dois metros. Nos estuários haveria a contaminação dos rios e das águas subterrâneas, salinizando-as. Os lençóis freáticos próximos às costas subiriam de nível e a água salgada iria ter aos rios, baías e às águas subterrâneas, abastecedoras das residências, indústrias, lavouras e pecuárias.

Em resumo, seria um desastre ecológico que empobreceria ainda mais os países mais pobres, por tirar-lhes território e meios de subsistência e seria um ônus extra para os países mais ricos pelo volume de dinheiro necessário para conter o desastre.

Esperamos que o encontro de Kioto se traduza em ações concretas.

 

Gil Portugal